sexta-feira, 29 de maio de 2026

ACCAMTAS

 

COMO A DEMANDA CHINESA IMPULSIONA A EXTRAÇÃO ILEGAL DE AREIA NA AMÉRICA LATINA 


DIÁLOGO AMÉRICAS é um programa do Comando Sul dos Estados Unidos (SOUTHCOM) que engloba um website, uma revista impressa e mídias sociais correlatas, cujo objetivo é forjar alianças e fomentar a cooperação entre nações parceiras. O SOUTHCOM publica Diálogo há mais de 25 anos para servir como um fórum internacional para militares e profissionais das forças de segurança nas Américas Central e do Sul, e no Caribe.


DIÁLOGO AMÉRICAS é publicada em português, inglês e espanhol. Seu conteúdo cobre uma ampla gama de assuntos que são relevantes para a região. Entre os principais temas abordados estão o terrorismo, o crime organizado internacional (incluindo o tráfico ilícito de drogas, armas e pessoas, e contrabando), a assistência humanitária, os direitos humanos, o treinamento e educação militar, bem como a segurança e cooperação regional.


No dia 29 de maio de 2026 foi publicada a reportagem “Como a demanda chinesa impulsiona a extração ilegal de areia na América Latina”, de autoria da jornalista Maria Zupello, tendo como entrevistado principal Luis Fernando Ramadon. 


https://dialogo-americas.com/es/articles/como-la-demanda-de-china-impulsa-la-extraccion-ilegal-de-arena-en-latinoamerica/


Fonte: MARIA ZUPELLO – DIÁLOGO AMÉRICAS (Washington, EUA)


Publicação: 2026/05/29


Vista aérea de área afetada pela mineração ilegal de areia no município de Seropédica, estado do Rio de Janeiro. (Foto: Luís Fernando Ramadon/Cortesia)


Com o consumo global de areia fluvial e marinha rondando os 50 mil milhões de toneladas por ano, organizações internacionais como o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) alertam há muito para o risco de esgotamento deste recurso e para as graves consequências ambientais associadas à sua redução progressiva. Neste contexto, a China consolidou a sua posição como o maior consumidor mundial, e as suas crescentes necessidades de abastecimento têm alimentado a extração e o tráfico ilegais em partes da Ásia e de África, e geram crescente preocupação na América Latina.

“A areia é um dos agregados mais importantes na construção civil, e sua extração é uma das atividades de mineração mais impactantes e insustentáveis, especialmente na ausência de controles”, explica Luís Fernando Ramadon , professor da Academia Brasileira de Polícia com especialização em gestão de recursos hídricos da Universidade Federal do Rio de Janeiro, ex-chefe da Unidade de Operações da Delegacia de Polícia Ambiental da Polícia Federal e fundador do portal Ação Contra Crimes Ambientais, Tráfico de Minerais e Silvicultura (ACCAMTAS).

O aumento do consumo é impulsionado principalmente pela demanda do setor da construção civil, que absorve aproximadamente 90% da areia extraída, utilizada principalmente na produção de cimento e asfalto.

Essa crescente pressão sobre os recursos também atraiu o interesse de redes criminosas na América Latina, onde o tráfico de areia frequentemente utiliza as mesmas rotas e infraestrutura da mineração ilegal e do narcotráfico.

Do Brasil à Colômbia, e por todo o Caribe, os casos que refletem essa tendência estão se multiplicando. O mais impressionante continua sendo o incidente de 2008 na praia de Coral Springs, na costa norte da Jamaica, onde o equivalente a cerca de 500 caminhões de areia foi roubado em uma única noite.


O papel da China:

A enorme demanda da China, que, em meio a um boom urbano entre 2011 e 2014, utilizou mais cimento do que os Estados Unidos em todo o século XX, foi associada a redes de extração ilícita em outras regiões do mundo, incluindo a Ásia e a África.



Vista aérea de uma área em Seropédica, estado do Rio de Janeiro, onde coexistem atividades de extração de areia legais e ilegais. (Foto: Luís Fernando Ramadon/Cortesia)


Especialistas alertam que dinâmicas semelhantes podem estar surgindo na América Latina. Embora os atores chineses normalmente não pareçam estar diretamente envolvidos na mineração ilegal, seu papel como intermediários, financiadores ou compradores finais tem sido documentado em diversos setores extrativos.

Como Vanda Felbab-Brown observou em seu recente depoimento perante a Comissão de Revisão Econômica e de Segurança EUA-China, o modus operandi chinês na América Latina segue padrões recorrentes, independentemente do recurso natural explorado.

“Os atores chineses raramente aparecem na extração ilegal, embora ocasionalmente participem do recrutamento de trabalhadores.” A especialista também destaca o papel fundamental dos intermediários chineses, que podem ser grupos criminosos ou empresas formalmente legais, e que “financiam a produção, fornecem equipamentos e insumos, obtêm documentos falsos, organizam o transporte e a exportação e atuam como compradores-chave”.

Esses padrões, observados em setores como o do ouro e o da madeira, estão se tornando cada vez mais relevantes para a extração de areia, especialmente em regiões onde a fiscalização deficiente e a expansão das atividades extrativas criam oportunidades para o desenvolvimento de cadeias de suprimento ilícitas. Na América Latina, a capacidade limitada de controle e as redes comerciais opacas contribuem para a criação de condições propícias para o enraizamento dessas dinâmicas.

Na Amazônia peruana, na região de Loreto e nos arredores de Iquitos, a extração ilegal de areia branca destruiu aproximadamente 260 hectares de floresta varillata em poucos anos. Esse ecossistema único se caracteriza por crescer em solos arenosos brancos, pobres em nutrientes e altamente ácidos.

A perda é particularmente grave: essas florestas podem levar até um século para se regenerar e desempenham um papel vital como filtros naturais de água da chuva, contribuindo para o abastecimento hídrico do rio Nanay, do qual dependem as comunidades locais.

Essas dinâmicas não são teóricas, nem se limitam à América Latina. Em outras regiões, atores chineses já foram associados a práticas prejudiciais e, em alguns casos, ilegais de extração de areia. Em Moçambique, uma empresa de propriedade chinesa foi acusada de causar sérios danos ambientais por meio de operações de extração de areia em áreas costeiras, enquanto em águas taiwanesas, as autoridades interceptaram repetidamente embarcações chinesas envolvidas em extração ilegal de areia.

Em conjunto, esses casos ilustram como a demanda da China por materiais de construção pode se estender além de suas fronteiras, operando às vezes em zonas cinzentas da lei e, outras vezes, cruzando para atividades ilícitas.

Para os especialistas, esses casos oferecem uma prévia de como dinâmicas semelhantes já estão surgindo na América Latina, onde a alta demanda, as rotas de tráfego consolidadas e a fiscalização desigual criam condições comparáveis.


O caso do Brasil:

Empresas chinesas frequentemente estabelecem operações em áreas onde convergem interesses econômicos e estratégicos. É o caso de Camaçari, no estado da Bahia, onde a primeira fábrica de automóveis do grupo BYD na América Latina foi inaugurada em outubro de 2025, em uma região afetada pela extração ilegal de areia.

A área ilustra como a atividade econômica legal e a extração ilícita podem coexistir no mesmo espaço geográfico e regulatório. Em março de 2025, a operação da Polícia Federal “Piratas das Dunas III” desmantelou uma rede que extraía e vendia areia ilegalmente nas dunas locais e nos arredores de Salvador, onde uma rota clandestina de exportação de quartzo verde para a China já havia sido identificada em 2024.

Segundo Ramadon, aproximadamente 68% da areia consumida no Brasil é ilegal, com prejuízos estimados em cerca de US$ 5,78 bilhões. O setor é dominado por milícias, grupos paramilitares frequentemente formados por ex-policiais, que também utilizam a areia extraída ilegalmente para construção nos territórios sob seu controle, principalmente no Rio de Janeiro.

“As milícias usam a extração de areia como fonte de recursos financeiros e também controlam o comércio de gás, o acesso à internet e o transporte alternativo. Elas cobram taxas pelo uso ou pela prestação de 'segurança' nos locais de mineração e comércio”, diz Ramadon.

Entre os casos mais conhecidos está o de Luis Antonio da Silva Braga, conhecido como Zinho, chefe da milícia Bonde do Zinho, que se entregou às autoridades em janeiro de 2023. O grupo havia se expandido para o município de Seropédica, a 75 quilômetros do Rio de Janeiro, onde o preço da areia extraída ilegalmente permanece competitivo. “Em Seropédica, existem atualmente cerca de 90 pedreiras autorizadas que vendem o metro cúbico de areia por entre 65 e 90 reais (US$ 13-18), enquanto nas pedreiras ilegais, sem licenças ou autorizações, o preço gira em torno de 50 reais (US$ 10)”, explica Ramadon.


O impacto ambiental e social:

A extração de areia causa danos ambientais graves, muitas vezes irreversíveis. "É responsável pela degradação de praias, rios e lagoas; pela alteração de cursos d'água; pelo aumento da sedimentação; pela erosão do solo; pela destruição de áreas protegidas, da flora e da fauna; e pela poluição do ar com aumento de material particulado", explica Ramadon.



Draga utilizada para extração ilegal de areia no município de Seropédica, Rio de Janeiro. (Foto: Luís Fernando Ramadon/Cortesia)

O impacto ambiental e social:

A extração de areia causa danos ambientais graves, muitas vezes irreversíveis. "É responsável pela degradação de praias, rios e lagoas; pela alteração de cursos d'água; pelo aumento da sedimentação; pela erosão do solo; pela destruição de áreas protegidas, da flora e da fauna; e pela poluição do ar com aumento de material particulado", explica Ramadon.

Na República Dominicana, a mineração ilegal está comprometendo a segurança hídrica e os ecossistemas dos rios Nizao, Yuna e Yaque del Norte. O setor gera aproximadamente US$ 1 bilhão anualmente, impulsionado pela sonegação fiscal e pelos baixos custos que tornam o mercado ilegal mais competitivo.

No Panamá, em março, o Ministério do Comércio e Indústrias confirmou a extração de cerca de 500 mil metros cúbicos de areia do fundo do mar em Punta Chame para um aterro costeiro de 2,5 quilômetros ligado a um projeto turístico sem autorização legal.

Na Colômbia, a mineração ilegal também tem sido associada à corrupção e à violência. Em Córdoba, o jornalista Rafael Moreno — que investigava crimes ambientais e corrupção local, incluindo a extração ilegal de recursos naturais — foi assassinado em 2022, evidenciando os riscos associados à exposição dessas redes.

 

Medidas Necessárias

Segundo especialistas, quase 80% da areia comercializada globalmente tem origem desconhecida, facilitada por lacunas regulatórias e falta de controles. Para Ramadon, a resposta deve ser abrangente: “É necessária inteligência administrativa para um controle rigoroso da extração legal, desde o local até a distribuição. E também é necessária ação policial para garantir um combate sistemático à extração ilegal e a identificação dos responsáveis”. Soma-se a isso a necessidade de maior coordenação institucional, mapeamento de áreas ilegais e incentivo à pesquisa acadêmica.

Segundo o PNUMA, o consumo global de areia e agregados atingiu níveis tais que, sem uma gestão sustentável, em 2050 a procura poderá exceder em muito a disponibilidade de recursos, transformando a areia, atualmente considerada inesgotável, numa mercadoria crítica.

Além da dimensão ambiental, as implicações são mais amplas: infraestrutura, desenvolvimento urbano e crescimento econômico dependem da areia. Sua crescente escassez ameaça alimentar conflitos, fortalecer economias ilícitas, intensificar a competição por recursos naturais e pressionar ainda mais a governança em regiões vulneráveis.





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segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

ACCAMTAS

THE BULWARK - 19/12/2024

  


Uma excelente notícia de final de ano.

 

O BULWARK (https://www.thebulwark.com/foi fundado para fornecer análises e reportagens em defesa da democracia liberal dos Estados Unidos.

Publicam artigos escritos e newsletters. Criam podcasts e vídeos do YouTube. Fazem análises políticas de especialistas.

O Bulwark foi fundado em 2019 por Sarah Longwell, Charlie Sykes e Bill Kristol. A ideia, então e agora, era dizer o que pensam, com honestidade e boa-fé.

Em 19 de dezembro de 2024, o jornalista Jonathan V. Last, publicou no THE BULWARK um artigo chamado de “A Tríade”, (https://www.thebulwark.com/p/american-folklore?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share) sendo que na primeira análise “American Folklore” observa como a tecnologia influenciou a política de uma forma tão inesperada.

A segunda análise “Viral”, é uma reflexão que se a sociedade liberal é um organismo, um demagogo é um vírus. O demagogo tira vantagem das liberdades oferecidas pelo liberalismo para atacar o hospedeiro. Às vezes, se o demagogo for virulento o suficiente, ele pode matar a sociedade.

E a terceira análise “A Máfia da Areia” considera muito boa a temática e reproduz o artigo de David A. Taylor, publicado na Revista de Ciência Americana, “Inside the Crime Rings Traffickin Sand” (https://www.scientificamerican.com/article/sand-mafias-are-plundering-the-earth/?src=longreads), onde consta a referência que muito nos orgulha:

“Muito poucas pessoas estão olhando atentamente para o sistema ilegal de areia ou pedindo mudanças, no entanto, porque a areia é um recurso mundano. No entanto, a mineração de areia é a maior indústria de extração do mundo porque a areia é um ingrediente principal no concreto, e a indústria global de construção vem crescendo há décadas. Todo ano, o mundo usa até 50 bilhões de toneladas métricas de areia, de acordo com um relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. O único recurso natural mais amplamente consumido é a água...

Areia em leitos de rios, leitos de lagos e litorais é a melhor para construção, mas a escassez abre o mercado para areia menos adequada de praias e dunas, grande parte dela raspada ilegalmente e de forma barata. Com a escassez iminente e os preços subindo, a areia de praias e dunas marroquinas é vendida dentro do país e também é enviada para o exterior, usando as extensas redes de transporte do crime organizado...

LUIS FERNANDO RAMADON, especialista da polícia federal no Brasil que estuda indústrias extrativas, estima que o comércio global ilegal de areia varia de US$ 200 bilhões a US$ 350 bilhões por ano — mais do que extração ilegal de madeira, mineração de ouro e pesca combinadas. Os compradores raramente verificam a procedência da areia; a areia legal e a do mercado negro parecem idênticas. A mineração ilegal raramente atrai a atenção da polícia porque parece mineração legítima — caminhões, retroescavadeiras e pás — não há proprietários de imóveis apresentando queixas, e as autoridades podem estar lucrando. Para sindicatos do crime, é dinheiro fácil.

 

                Desta forma, encerramos 2024 desejando um FELIZ NATAL e um ABENÇOADO e PRÓSPERO 2025.

 

Luis Fernando Ramadon

 




Você deve ter notado que as coisas ficaram estranhas nos últimos anos.

A Fox News está promovendo uma White Power Hour. O Twitter está se transformando em Pepe Town Alt-Light X. Um movimento político inteiro obcecado por drag queens e banheiros. Pandemias, insurreições e um Bad Orange Man.

No centro de toda essa estranheza está uma reconsideração do liberalismo e da democracia que começou na Europa e migrou para a América.

O Bulwark foi fundado para fornecer análises e reportagens em defesa da democracia liberal dos Estados Unidos.

É isso. Essa é a missão.

Publicamos artigos escritos e newsletters. Criamos podcasts e vídeos do YouTube. Damos análises políticas de especialistas que passaram suas vidas no negócio.

Parte do que fazemos está por trás de um paywall. A maioria do que fazemos não está. Isso porque somos uma organização baseada em missão primeiro e um negócio depois. 

E não é possível ajudar a salvar a democracia se você estiver atrás de um paywall.

The Bulwark é uma publicação apoiada por leitores. Inscreva-se para receber boletins informativos e apoiar nosso trabalho.


O Bulwark foi fundado em 2019 por Sarah Longwell, Charlie Sykes e Bill Kristol. A ideia, então e agora, era dizer a você o que pensamos — com honestidade e boa fé.

Colocar o país acima do partido.

Saber que estamos todos juntos nisso.

E construir um lar para os politicamente desabrigados.

 

Fomos apoiados por dezenas de milhares de pessoas que não apenas decidiram se tornar membros do Bulwark+ , mas também se envolver e criar o tipo de comunidade que não deveria ser possível na internet: um lugar onde as pessoas se opõem ao tribalismo e à polarização, têm conversas respeitosas e demonstram empatia umas pelas outras.

As pessoas que trabalham no The Bulwark podem ser o cérebro, mas a comunidade do The Bulwark é a espinha dorsal da organização.

Então, se você quer notícias honestas, análises inteligentes e conversas de boa fé, o Bulwark é o lugar para você.

Venha se juntar a nós. Temos um país para salvar. E a única maneira de fazer isso é juntos.

 


The Triad


American Folklore

The internet was supposed to spread information and elevate our understanding of the world. Instead it turned us into a primitive people, reliant on folk stories.

 Jonathan V. Last

19 de dezembro de 2024


Sei que deveríamos estar falando sobre a possibilidade de uma paralisação do governo e da tomada do governo Trump por Elon Musk, mas hoje quero dar um zoom de 30.000 pés e observar como a tecnologia influenciou nossa política de uma forma totalmente inesperada.

O sonho da internet era que ela criaria uma sociedade de alta informação e alta confiança. A tecnologia deveria tornar fatos e fontes primárias imediatamente disponíveis para todos, inaugurando assim uma era de racionalidade e tomada de decisão baseada em dados.

Se você morasse em Bumblefuck, Missouri, a internet significava que você não estaria mais preso ao fluxo limitado de notícias fornecido pelo seu jornal local, três redes de transmissão e diversos tocadores de notícias a cabo. Você seria capaz de ver as informações com seus próprios olhos.

Um comitê do Senado emitiu um relatório importante? Um periódico científico publicou um estudo histórico? Você seria capaz de sentar na sua sala de estar e abrir o estudo ou relatório real e lê-lo você mesmo, do começo ao fim. Seu jornal local pode publicar uma história de 600 palavras sobre um discurso de algum político. A internet significava que você poderia assistir ao discurso inteiro, sem filtros, e tirar suas próprias conclusões.

Em vez de depender de um pequeno número de guardiões de informações, agora você tinha acesso direto aos dados. Então você não precisava mais depender do que a mídia lhe dizia sobre, digamos, crimes. Você podia puxar as estatísticas de crimes do FBI e olhar os números com seus próprios olhos.

Mas não foi bem assim que aconteceu.

A internet tornou todos esses dados prontamente disponíveis para as pessoas. E acontece que muitas vezes há muito disso e é muito complicado para que leigos normais entendam. Mas o maior problema tem sido o grande volume de ruído que a internet deu origem. O ruído sobrecarregou as informações, acelerando o declínio da confiança nas instituições. O efeito líquido foi tornar a população como um todo menos presa a fatos e dados — e mais animada por histórias populares e algo como uma tradição oral.

Vamos nos aprofundar em tudo isso.

Mas primeiro quero que você feche os olhos e imagine ser Mike Johnson.

Você é o presidente da Câmara dos Representantes. Uma das pessoas mais poderosas do mundo. Segundo na linha de sucessão à presidência. E seu trabalho agora exige que você passe horas no telefone com Vivek Ramaswamy à noite, tentando explicar política a ele e implorando para que ele não feche o governo federal.

Sim, meus amigos, estamos indo para o Lugar Ruim. Mas haverá algumas diversões divertidas ao longo do caminho.


(Composição / Fotos: GettyImages / Shutterstock)



1. Folclore

Este ensaio de Matt Pearce me surpreendeu porque aborda uma verdade tão profunda que não consigo acreditar que nunca me ocorreu antes:

O resultado de tudo isso [mudança na economia da mídia] é uma crescente alienação do consumidor em relação às fontes reais de informação, um retorno a um tipo de sociedade de histórias populares pronta para manipulação por demagogos que prometem simplicidade em um mundo cada vez mais complexo.

Isto. É isto, bem ali.

Agora somos uma sociedade de histórias folclóricas. Os drones . Os imigrantes comendo gatos e cachorros. A onda de crimes e as “dificuldades econômicas” que não são reais desde 2022.

É tudo folclore. Histórias que um povo pós-letrado passa uns aos outros na tradição oral.

Não posso recomendar o ensaio de Pearce o suficiente. Você deveria ler tudo . Mas eu lhe darei um resumo grosseiro de seu argumento.

  • No jornalismo, a produção de reportagens sempre foi cara em comparação à opinião.
  • A internet reduziu radicalmente o custo de produção de opinião, ao mesmo tempo em que reduziu apenas marginalmente o custo de reportagem, exagerando assim esse desequilíbrio antigo.1
  • Essa realidade econômica aumentou as porcentagens relativas de produção de mídia, aumentando assim consideravelmente a porcentagem total do bolo de informações que é formada por opinião inventada.
  • À medida que a percentagem de “opinião” aumentou e afastou os relatórios, a sociedade normalizou este fenómeno e voltou a ancorar as suas expectativas e tolerâncias.
  • Essa reancoragem faz com que as pessoas esperem que a opinião, e não a reportagem, seja sua principal fonte de informação.

 

Eu digo “opinião”, mas Pearce diz apenas “besteira”.2O que estamos falando não é apenas sobre a escrita de opinião profissional , mas sobre opiniões publicadas por qualquer pessoa em qualquer formato. Este universo de conteúdo que vai de, digamos: este boletim informativo, à página editorial do New York Times , à National Review, ao Epoch Times , às organizações de notícias falsas da Macedônia , aos pôsteres individuais no Facebook, aos bots do Twitter.

Esses gráficos não estão em escala e estou apenas inventando números, mas imagine a produção total de “mídia” publicada na América em 1990 e 2020. Poderia ser algo assim:




Neste mar de opinião/besteira, as pessoas hoje em dia têm muito menos probabilidade de encontrar informações genuínas do que tinham há 30 anos. Este fato fundamental significa que elas se acostumaram a confiar em opinião/besteira.

E então, em vez de avançar a compreensão da sociedade sobre o mundo ao nosso redor, o efeito líquido da internet tem sido nos tornar mais primitivos. Mais dependentes do folclore, passado de pessoa para pessoa.

Pergunte a si mesmo: uma história como imigrantes comendo cães e gatos poderia ter motivado a eleição de 1992? Ou mesmo a eleição de 2000? Acho que não.3


Não é para romantizar o passado. A demagogia sempre teve um lugar na política: o Red Scare, a Southern Strategy, Willie Horton.

Mas será que um candidato presidencial do passado poderia ter inventado uma história totalmente falsa, que não continha nem um pingo de verdade — e até mesmo admitido que era falsa, em tempo real — e essa história teria sido tão impactante?

Mais uma vez: acho que não.

A grande percepção de Pearce é que este novo mundo está maduro para demagogos porque eles prosperam em sociedades que funcionam com histórias populares. As mentiras do demagogo se espalham de pessoa para pessoa e mesmo que o demagogo seja conclusivamente exposto como um mentiroso, ninguém acredita na exposição.


 


2. Viral

Se a sociedade liberal é um organismo, um demagogo é um vírus. O demagogo tira vantagem das liberdades oferecidas pelo liberalismo para atacar o hospedeiro. Às vezes, se o demagogo for virulento o suficiente, ele pode matar a sociedade.

Com o tempo, as sociedades liberais criam anticorpos contra demagogos. O acúmulo de tais anticorpos é uma das razões pelas quais quanto mais uma sociedade liberal perdura, mais provável é que ela sobreviva aos desafios. Sociedades liberais relativamente novas são vulneráveis ​​porque não tiveram tempo para criar anticorpos. Sociedades liberais antigas são mais robustas.

Esses anticorpos vêm em muitas formas: leis, tradições, instituições, sociedade civil, uma mídia independente.

Nós já esperávamos que as revoluções tecnológicas da era da informação se tornassem outro anticorpo; outra camada de proteção. Mas não foi assim que aconteceu. Em vez disso, está claro que o estado atual da tecnologia tem sido como uma dose de radiação que mata os anticorpos e compromete o sistema imunológico do organismo — neste caso, deixando nossa sociedade mais vulnerável a demagogos do que tem sido em gerações.


Uma última coisa: há uma lição ainda mais ampla aqui sobre progresso e contingência.

Volte para 1996 e para a infância da internet pública e você teria dificuldade em encontrar alguém que pensasse que a era da informação poderia nos levar para trás como sociedade, nos tornando menos sofisticados, mais dependentes de histórias populares e mais suscetíveis a demagogos.

O que destaca uma verdade: Devemos ser extremamente humildes ao antecipar as consequências de longo prazo de mudanças em larga escala. Quando a Terra se move, as coisas podem se desenvolver de maneiras inesperadas.

Outra verdade: a vida é contingente e muito poucas coisas são inevitáveis. Os efeitos que discutimos hoje surgiram por causa de escolhas e decisões específicas feitas na América por empresas, tribunais, pessoas individuais e governos.

Se tivéssemos feito escolhas diferentes, então poderíamos ter chegado a um lugar diferente. O encontro da China com a internet, por exemplo, tem sido bem diferente do nosso. Na China, a internet serviu para reforçar instituições existentes e fortalecer a autoridade.4

 



3. A Máfia da Areia

Isso é muito bom.

 

Até alguns anos atrás, Abderrahmane nunca tinha ouvido falar de tráfico de areia. Ele estava no Mali fazendo trabalho de campo sobre o tráfico de drogas quando uma fonte observou que a maior parte da cannabis no Mali vinha do Marrocos e que o tráfico de areia também era um grande mercado naquele país, com traficantes de drogas envolvidos. “Acho que quando você fala sobre tráfico de areia, a maioria das pessoas não acreditaria”, diz Abderrahmane. “Eu inclusive. Agora acredito.”

Muito poucas pessoas estão olhando atentamente para o sistema ilegal de areia ou pedindo mudanças, no entanto, porque a areia é um recurso mundano. No entanto, a mineração de areia é a maior indústria de extração do mundo porque a areia é um ingrediente principal no concreto, e a indústria global de construção vem crescendo há décadas. Todo ano, o mundo usa até 50 bilhões de toneladas métricas de areia, de acordo com um relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. O único recurso natural mais amplamente consumido é a água. . .

Areia em leitos de rios, leitos de lagos e litorais é a melhor para construção, mas a escassez abre o mercado para areia menos adequada de praias e dunas, grande parte dela raspada ilegalmente e de forma barata. Com a escassez iminente e os preços subindo, a areia de praias e dunas marroquinas é vendida dentro do país e também é enviada para o exterior, usando as extensas redes de transporte do crime organizado, Abderrahmane descobriu. Mais da metade da areia do Marrocos é extraída ilegalmente, ele diz.

Luis Fernando Ramadon, especialista da polícia federal no Brasil que estuda indústrias extrativas, estima que o comércio global ilegal de areia varia de US$ 200 bilhões a US$ 350 bilhões por ano — mais do que extração ilegal de madeira, mineração de ouro e pesca combinadas. Os compradores raramente verificam a procedência da areia; a areia legal e a do mercado negro parecem idênticas. A mineração ilegal raramente atrai a atenção da polícia porque parece mineração legítima — caminhões, retroescavadeiras e pás — não há proprietários de imóveis apresentando queixas, e as autoridades podem estar lucrando. Para sindicatos do crime, é dinheiro fácil.

Leia tudo.

(https://www.scientificamerican.com/article/sand-mafias-are-plundering-the-earth/?src=longreads)

 

 

1 Esse fenômeno econômico está bem estabelecido e é conhecido como Efeito Baumol .

2 Muita escrita de opinião é pura besteira. E até mesmo uma porcentagem do que parece ser reportagem é realmente besteira. Por exemplo: um artigo antivacina pode parecer superficialmente "reportagem", mas se for baseado em besteira, então é realmente parte do universo da opinião.

3 Nem me faça começar a falar da narrativa do “crime”. O crime disparou em 2020 sob Trump. Em 2022, os níveis de crime estavam diminuindo. Em 2023 e 2024, essas taxas de declínio foram extraordinárias.

E ainda assim Trump conseguiu concorrer contra Biden com base na ideia de que o crime estava fora de controle quando (a) não estava e (b) todo o aumento da criminalidade havia começado no governo Trump.

Não creio que essa história popular pudesse ter sobrevivido em 1992 ou 2000. Talvez nem mesmo em 2008.

4 Isso deveria ser óbvio, mas: não estou dizendo que devemos imitar a abordagem chinesa à internet. As “instituições” que foram apoiadas na China por sua abordagem à internet são autoritárias, repressivas e até mesmo malignas.

Estou apenas observando a realidade de que diferentes abordagens podem resultar em resultados diferentes. Isso não é um julgamento de valor.

 

 

 

 

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sexta-feira, 19 de julho de 2024

ACCAMTAS

REVISTA CRUSOÉ - 19JUL2024 - OS CRIMES DA AREIA



Item é mais raro que parece – e sua extração ilegal enriquece o crime organizado em todo o mundo. No brasil, montantes ilegais são bilionários



 



Areais em Seropédica. Todos os lagos fora de algum polígono são ilegais.












ENTREVISTA DE GUI MENDES COM LUIS FERNANDO RAMADON  NÃO PUBLICADA.

1)      O que, é, em uma definição sucinta, uma areia ilegal?

A extração ilegal pode ocorrer quando o minerador extrai fora da área (processo minerário) autorizada, ou quando começa a extrair sem ter Guia de Utilização, Licenciamento ou Concessão de Lavra e quando o criminoso, com seu maquinário e caminhões ou mesmo com pás e animais de tração, extrai em qualquer lugar onde a areia esteja, seja em rios, cavas ou outros depósitos, sem as devidas autorizações da Agência Nacional de Mineração, descumprindo o que estabelece o Código de Mineração, Decreto-Lei nº 227 de 28/2/67.


2)      O seu levantamento aponta que há crimes de extração ilegal de areia — isso se dá mais por minas ilegais ou por minas que extraem mais do que é permitido legalmente?

Os dois tipos podem ocorrer. Nos grandes centros existe até algum tipo de fiscalização, mas nas regiões um pouco mais afastadas é mais difícil. Quem extrai e não declara que extraiu, mesmo tendo um processo minerário que lhe permite extrair, também está extraindo uma areia ilegal.

 

3)      Como é possível definir a fiscalização no Brasil sobre o mercado ilegal de areia?

Uma das deficiências de fiscalização ocorre em função da redução drástica de funcionários da Agência Nacional de Mineração, que em 2010 eram 1.194 funcionários e em 2024 apenas 691, para todo o Brasil, segundo a própria ANM.

Inclusive, em junho de 2024, de um total de 37.600 Processos Minerários que extraem legalmente, foram apresentados 13.500 Relatórios Anuais de Lavra, ou seja, somente 36%. Desta forma, quem garante o que ocorreu nos outros 64%?

 

4)      Nem toda a areia pode ser utilizada para os fins de construção civil? É correto dizer que a areia está em extinção no Brasil e no mundo?

Quando o mundo começou a ser alertado nas três últimas décadas do século passado, sobre os problemas que poderiam acontecer devido à mudança climática, alguns negacionistas começaram a dizer que eram exageradas as previsões, que eram militantes ecológicos querendo aparecer. Hoje, existe uma preocupação mundial sobre os desastres climáticos.

Em relação à extração ilegal de areia, o primeiro prejudicado é o meio ambiente. Em 2014, o Programa da Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), alertou sobre o problema da futura escassez de areia, um dos recursos naturais mais acessíveis, em função demanda insaciável para a construção de moradias e obras públicas, como estradas e rodovias, extraída principalmente em rios, praias, restingas e depósitos arenosos, causando danos ambientais irreversíveis nos ecossistemas.

Alterações dos cursos d'água; aumento do teor do material sedimentado em suspensão, promovendo assoreamento; desmatamento; descaracterização do relevo; formação das cavas; assoreamento de cursos d'água perenes; destruição de áreas de preservação permanente; destruição da flora e fauna; Alteração do meio atmosférico, são apenas alguns dos danos ambientais provocados pela exploração mineral.

Com esse alerta, diversos estudos começaram a ser produzidos para dimensionar o problema e procurar soluções alternativas para a areia, como um dos agregados do concreto, alicerce da construção civil em suas obras.

Em 2107 a ONU Meio Ambiente publicou o estudo “Areia e sustentabilidade: Encontrar novas soluções para a governação ambiental dos recursos globais de areia revelando que a extração de agregados nos rios levou à poluição, inundações, redução dos aquíferos e agravamento da seca.

Um estudo de 2022 realizado na Universidade de Amsterdã, concluiu que a atual dragagem de areia de rios, que ultrapassam em muito a capacidade da natureza para a substituir, poderá fazer com que o mundo fique sem areia para construção até 2050. O relatório da ONU confirma que a extração de areia às taxas atuais é insustentável.

Em 2023 o Fórum Mundial de Recursos, lançou o Marine Sand Watch, uma plataforma global de dados que rastreia e monitoriza a extração de areia no ambiente marinho. O evento organizado pelo PNUMA/GRID-Genebra e pela Rede Ambiental de Genebra, discutiu etapas para identificar boas práticas na extração de padrões e políticas ambientais.

A “Scientific American” é uma revista mensal de divulgação científica dos Estados Unidos desde 1845, publicou em de fevereiro de 2024 o artigo “– Por Dentro dos Círculos do Crime Tráfico de Areia”, que levanta a questão da extração ilegal da areia, onde o crime organizado está extraindo areia de rios e costas para alimentar a procura mundial, arruinando ecossistemas e comunidades.

Portanto, essa areia extraída ilegalmente pode contribuir para diminuir o estoque de areia no mundo. Já existe essa preocupação com a extinção, que da mesma forma que ocorreu com as mudanças climáticas, muitos leigos consideram essa afirmação como exagerada, mas somente por achismo, sem nenhum estudo que prove ao contrário.

 

5)      A situação que o Brasil passa é igual a outros países que sofrem da mesma "epidemia" de areia ilegal?

Os números do estudo a “Extração Ilegal de Areia no Brasil e no Mundo – 2024”, revelam que 68% da areia consumida no Brasil é proveniente de extração ilegal e deixa de arrecadar com a Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais – CFEM, entre cerca de 160 e 540 milhões de reais, a depender do preço comercializado.

A situação realmente é muito crítica, principalmente pela deficiência de fiscalização por parte de todos que deveriam fiscalizar.

  

6)      O cidadão consegue tomar alguma medida concreta para evitar alimentar esse mercado? Como não comprar areia pirata?

O cidadão comum não tem muito a fazer, pois ele vai numa loja de material de construção e compra a areia com nota fiscal. A loja de material de construção compra a areia da mineradora com nota fiscal. Como saber se a mineradora extraiu a areia de uma área em que tinha autorização para extrair? Como saber se a loja não comprou a areia de carroceiros, que foram no rio e buscaram a areia? Somente o poder público, consciente da importância de se combater esse crime é que pode minimizar os diversos problemas que ocorrem. E para isso tem que haver vontade política, tem que a haver conhecimento e preparo.

Para o cidadão resta tomar conhecimento da importância desse crime no cenário mundial e cobrar das autoridades a diminuição desses surpreendentes índices de ilegalidade.


Ranking Atualizado dos Principais Crimes Globais – GFI/LFR. - 2023

 

CRIMES TRANSNACIONAIS[1]

FATURAMENTO US$ bilhões

1

Pirataria e Falsificações

923,0 a 1.130,0

2

Tráfico de Drogas

426,0 a 652,0

3

EXTRAÇÃO ILEGAL DE AREIA

376,8 a 659,2

4

Tráfico de Pessoas

150,2

5

Extração Ilegal de Madeira

52,0 a 157,0

6

Mineração Ilegal de Ouro, Diamantes e Pedras Preciosas

12,0 a 48,0

7

Pesca Ilegal

15,5 a 36,4

8

Tráfico de Animais Silvestres (Selvagens)

5,0 a 23,0

9

Roubo de Petróleo Bruto

5,2 a 11,9

10

Tráfico de Bens Culturais E Artísticos

1,2 a 1,7

11

Tráfico de Armas

1,7 a 3,5

12

Tráfico de Órgãos

0,84 a 1,7

Fonte: Adaptação do autor no Ranking da Global Financial Integrity – GFI/Ramadon, Luis Fernando, 2024.

 

 

 

 

 

 



[1] http://www.gfintegrity.org/report/transnational-crime-and-the-developing-world/.



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