sexta-feira, 29 de maio de 2026

ACCAMTAS

 

COMO A DEMANDA CHINESA IMPULSIONA A EXTRAÇÃO ILEGAL DE AREIA NA AMÉRICA LATINA 


DIÁLOGO AMÉRICAS é um programa do Comando Sul dos Estados Unidos (SOUTHCOM) que engloba um website, uma revista impressa e mídias sociais correlatas, cujo objetivo é forjar alianças e fomentar a cooperação entre nações parceiras. O SOUTHCOM publica Diálogo há mais de 25 anos para servir como um fórum internacional para militares e profissionais das forças de segurança nas Américas Central e do Sul, e no Caribe.


DIÁLOGO AMÉRICAS é publicada em português, inglês e espanhol. Seu conteúdo cobre uma ampla gama de assuntos que são relevantes para a região. Entre os principais temas abordados estão o terrorismo, o crime organizado internacional (incluindo o tráfico ilícito de drogas, armas e pessoas, e contrabando), a assistência humanitária, os direitos humanos, o treinamento e educação militar, bem como a segurança e cooperação regional.


No dia 29 de maio de 2026 foi publicada a reportagem “Como a demanda chinesa impulsiona a extração ilegal de areia na América Latina”, de autoria da jornalista Maria Zupello, tendo como entrevistado principal Luis Fernando Ramadon. 


https://dialogo-americas.com/es/articles/como-la-demanda-de-china-impulsa-la-extraccion-ilegal-de-arena-en-latinoamerica/


Fonte: MARIA ZUPELLO – DIÁLOGO AMÉRICAS (Washington, EUA)


Publicação: 2026/05/29


Vista aérea de área afetada pela mineração ilegal de areia no município de Seropédica, estado do Rio de Janeiro. (Foto: Luís Fernando Ramadon/Cortesia)


Com o consumo global de areia fluvial e marinha rondando os 50 mil milhões de toneladas por ano, organizações internacionais como o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) alertam há muito para o risco de esgotamento deste recurso e para as graves consequências ambientais associadas à sua redução progressiva. Neste contexto, a China consolidou a sua posição como o maior consumidor mundial, e as suas crescentes necessidades de abastecimento têm alimentado a extração e o tráfico ilegais em partes da Ásia e de África, e geram crescente preocupação na América Latina.

“A areia é um dos agregados mais importantes na construção civil, e sua extração é uma das atividades de mineração mais impactantes e insustentáveis, especialmente na ausência de controles”, explica Luís Fernando Ramadon , professor da Academia Brasileira de Polícia com especialização em gestão de recursos hídricos da Universidade Federal do Rio de Janeiro, ex-chefe da Unidade de Operações da Delegacia de Polícia Ambiental da Polícia Federal e fundador do portal Ação Contra Crimes Ambientais, Tráfico de Minerais e Silvicultura (ACCAMTAS).

O aumento do consumo é impulsionado principalmente pela demanda do setor da construção civil, que absorve aproximadamente 90% da areia extraída, utilizada principalmente na produção de cimento e asfalto.

Essa crescente pressão sobre os recursos também atraiu o interesse de redes criminosas na América Latina, onde o tráfico de areia frequentemente utiliza as mesmas rotas e infraestrutura da mineração ilegal e do narcotráfico.

Do Brasil à Colômbia, e por todo o Caribe, os casos que refletem essa tendência estão se multiplicando. O mais impressionante continua sendo o incidente de 2008 na praia de Coral Springs, na costa norte da Jamaica, onde o equivalente a cerca de 500 caminhões de areia foi roubado em uma única noite.


O papel da China:

A enorme demanda da China, que, em meio a um boom urbano entre 2011 e 2014, utilizou mais cimento do que os Estados Unidos em todo o século XX, foi associada a redes de extração ilícita em outras regiões do mundo, incluindo a Ásia e a África.



Vista aérea de uma área em Seropédica, estado do Rio de Janeiro, onde coexistem atividades de extração de areia legais e ilegais. (Foto: Luís Fernando Ramadon/Cortesia)


Especialistas alertam que dinâmicas semelhantes podem estar surgindo na América Latina. Embora os atores chineses normalmente não pareçam estar diretamente envolvidos na mineração ilegal, seu papel como intermediários, financiadores ou compradores finais tem sido documentado em diversos setores extrativos.

Como Vanda Felbab-Brown observou em seu recente depoimento perante a Comissão de Revisão Econômica e de Segurança EUA-China, o modus operandi chinês na América Latina segue padrões recorrentes, independentemente do recurso natural explorado.

“Os atores chineses raramente aparecem na extração ilegal, embora ocasionalmente participem do recrutamento de trabalhadores.” A especialista também destaca o papel fundamental dos intermediários chineses, que podem ser grupos criminosos ou empresas formalmente legais, e que “financiam a produção, fornecem equipamentos e insumos, obtêm documentos falsos, organizam o transporte e a exportação e atuam como compradores-chave”.

Esses padrões, observados em setores como o do ouro e o da madeira, estão se tornando cada vez mais relevantes para a extração de areia, especialmente em regiões onde a fiscalização deficiente e a expansão das atividades extrativas criam oportunidades para o desenvolvimento de cadeias de suprimento ilícitas. Na América Latina, a capacidade limitada de controle e as redes comerciais opacas contribuem para a criação de condições propícias para o enraizamento dessas dinâmicas.

Na Amazônia peruana, na região de Loreto e nos arredores de Iquitos, a extração ilegal de areia branca destruiu aproximadamente 260 hectares de floresta varillata em poucos anos. Esse ecossistema único se caracteriza por crescer em solos arenosos brancos, pobres em nutrientes e altamente ácidos.

A perda é particularmente grave: essas florestas podem levar até um século para se regenerar e desempenham um papel vital como filtros naturais de água da chuva, contribuindo para o abastecimento hídrico do rio Nanay, do qual dependem as comunidades locais.

Essas dinâmicas não são teóricas, nem se limitam à América Latina. Em outras regiões, atores chineses já foram associados a práticas prejudiciais e, em alguns casos, ilegais de extração de areia. Em Moçambique, uma empresa de propriedade chinesa foi acusada de causar sérios danos ambientais por meio de operações de extração de areia em áreas costeiras, enquanto em águas taiwanesas, as autoridades interceptaram repetidamente embarcações chinesas envolvidas em extração ilegal de areia.

Em conjunto, esses casos ilustram como a demanda da China por materiais de construção pode se estender além de suas fronteiras, operando às vezes em zonas cinzentas da lei e, outras vezes, cruzando para atividades ilícitas.

Para os especialistas, esses casos oferecem uma prévia de como dinâmicas semelhantes já estão surgindo na América Latina, onde a alta demanda, as rotas de tráfego consolidadas e a fiscalização desigual criam condições comparáveis.


O caso do Brasil:

Empresas chinesas frequentemente estabelecem operações em áreas onde convergem interesses econômicos e estratégicos. É o caso de Camaçari, no estado da Bahia, onde a primeira fábrica de automóveis do grupo BYD na América Latina foi inaugurada em outubro de 2025, em uma região afetada pela extração ilegal de areia.

A área ilustra como a atividade econômica legal e a extração ilícita podem coexistir no mesmo espaço geográfico e regulatório. Em março de 2025, a operação da Polícia Federal “Piratas das Dunas III” desmantelou uma rede que extraía e vendia areia ilegalmente nas dunas locais e nos arredores de Salvador, onde uma rota clandestina de exportação de quartzo verde para a China já havia sido identificada em 2024.

Segundo Ramadon, aproximadamente 68% da areia consumida no Brasil é ilegal, com prejuízos estimados em cerca de US$ 5,78 bilhões. O setor é dominado por milícias, grupos paramilitares frequentemente formados por ex-policiais, que também utilizam a areia extraída ilegalmente para construção nos territórios sob seu controle, principalmente no Rio de Janeiro.

“As milícias usam a extração de areia como fonte de recursos financeiros e também controlam o comércio de gás, o acesso à internet e o transporte alternativo. Elas cobram taxas pelo uso ou pela prestação de 'segurança' nos locais de mineração e comércio”, diz Ramadon.

Entre os casos mais conhecidos está o de Luis Antonio da Silva Braga, conhecido como Zinho, chefe da milícia Bonde do Zinho, que se entregou às autoridades em janeiro de 2023. O grupo havia se expandido para o município de Seropédica, a 75 quilômetros do Rio de Janeiro, onde o preço da areia extraída ilegalmente permanece competitivo. “Em Seropédica, existem atualmente cerca de 90 pedreiras autorizadas que vendem o metro cúbico de areia por entre 65 e 90 reais (US$ 13-18), enquanto nas pedreiras ilegais, sem licenças ou autorizações, o preço gira em torno de 50 reais (US$ 10)”, explica Ramadon.


O impacto ambiental e social:

A extração de areia causa danos ambientais graves, muitas vezes irreversíveis. "É responsável pela degradação de praias, rios e lagoas; pela alteração de cursos d'água; pelo aumento da sedimentação; pela erosão do solo; pela destruição de áreas protegidas, da flora e da fauna; e pela poluição do ar com aumento de material particulado", explica Ramadon.



Draga utilizada para extração ilegal de areia no município de Seropédica, Rio de Janeiro. (Foto: Luís Fernando Ramadon/Cortesia)

O impacto ambiental e social:

A extração de areia causa danos ambientais graves, muitas vezes irreversíveis. "É responsável pela degradação de praias, rios e lagoas; pela alteração de cursos d'água; pelo aumento da sedimentação; pela erosão do solo; pela destruição de áreas protegidas, da flora e da fauna; e pela poluição do ar com aumento de material particulado", explica Ramadon.

Na República Dominicana, a mineração ilegal está comprometendo a segurança hídrica e os ecossistemas dos rios Nizao, Yuna e Yaque del Norte. O setor gera aproximadamente US$ 1 bilhão anualmente, impulsionado pela sonegação fiscal e pelos baixos custos que tornam o mercado ilegal mais competitivo.

No Panamá, em março, o Ministério do Comércio e Indústrias confirmou a extração de cerca de 500 mil metros cúbicos de areia do fundo do mar em Punta Chame para um aterro costeiro de 2,5 quilômetros ligado a um projeto turístico sem autorização legal.

Na Colômbia, a mineração ilegal também tem sido associada à corrupção e à violência. Em Córdoba, o jornalista Rafael Moreno — que investigava crimes ambientais e corrupção local, incluindo a extração ilegal de recursos naturais — foi assassinado em 2022, evidenciando os riscos associados à exposição dessas redes.

 

Medidas Necessárias

Segundo especialistas, quase 80% da areia comercializada globalmente tem origem desconhecida, facilitada por lacunas regulatórias e falta de controles. Para Ramadon, a resposta deve ser abrangente: “É necessária inteligência administrativa para um controle rigoroso da extração legal, desde o local até a distribuição. E também é necessária ação policial para garantir um combate sistemático à extração ilegal e a identificação dos responsáveis”. Soma-se a isso a necessidade de maior coordenação institucional, mapeamento de áreas ilegais e incentivo à pesquisa acadêmica.

Segundo o PNUMA, o consumo global de areia e agregados atingiu níveis tais que, sem uma gestão sustentável, em 2050 a procura poderá exceder em muito a disponibilidade de recursos, transformando a areia, atualmente considerada inesgotável, numa mercadoria crítica.

Além da dimensão ambiental, as implicações são mais amplas: infraestrutura, desenvolvimento urbano e crescimento econômico dependem da areia. Sua crescente escassez ameaça alimentar conflitos, fortalecer economias ilícitas, intensificar a competição por recursos naturais e pressionar ainda mais a governança em regiões vulneráveis.





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